Os grandes enigmas do conclave dos ”camaradas”

O congresso da eleição de João Lourenço é já amanha mas o seu caminho não está totalmente despido de minas. Com que votos será eleito o novo líder do MPLA e quem será o seu lugar-tenente na presidência do partido? Eis as grandes incógnitas,

A cena está montada. Amanhã a história do maior partido angolano, MPLA – cujos indefectíveis já tiveram a pretensão de o comparar àquela que é realmente a maior organização política do continente, o Congresso Nacional Africano (ANC) da África do Sul – dará um passo em frente com a realização do conclave extraordinário que ditará a chegada de um novo protagonista à sua liderança: João Lourenço.

Dois assuntos-chave deverão dominar este congresso extraordinário: a eleição – uninominal, porque feita sem concorrentes – de João Lourenço como presidente do partido em substituição de José Eduardo dos Santos e, depois disso, tratar-se-á de ver quem será a figura que o novo líder escolherá para vice-presidente.

Se o líder, de acordo com os estatutos do partido, é eleito, já no que diz respeito ao cargo de vice-presidente, este é indigitado estritamente pelo próprio presidente. O que significa que João Lourenço terá total prerrogativa de escolher, dentre os seus pares na direcção (membros do Bureau Político do Comité Central), aquele que será o seu imediato na condução da organização.

 

Mas embora pareça, à priori, um exercício simples, não será tão simples assim. Nem para os congressistas e muito menos ainda para o próprio João Lourenço. Ou seja, é consensual que João Lourenço será o novo líder do MPLA – o que está, de resto, exemplificado no episódio recente em que Luzia Inglês, em declarações públicas, afirmou, sem o menor pudor e para todo o mundo ouvir, que apesar do voto ser secreto ela já tinha a sua escolha feita: João Lourenço, pois não podia ser outro…

Mas depois disso começam as variáveis incógnitas, a primeira das quais reside em saber qual será o percentual de votos que o novo líder merecerá. Desse factor, aparentemente despocienfo, depende a sua maior ou menor legitimidade para dirigir com rédea solta os destinos futuros do partido.

Isso mesmo. O que nunca foi assunto a cogitar nos conclaves anteriores, desde os tempos do centralismo democrático, nos quais a recondução de José Eduardo dos Santos na liderança do MPLA nunca passou de mera formalidade, tendo sido quase sempre reconduzido por unanimidade, desta vez está longe de ser um dado adquirido que se passe o mesmo com João Lourenço. E diz-se “quase sempre” porque a excepção que confirma a regra foi o conclave de 2016, quando dos Eduardo Santos foi confirmado como líder com irrisória meia dúzia de votos contra.

Naquela altura, os votos desfavoráveis à manutenção de dos Santos tinham sido possíveis porque, pela primeira vez, fora aplicado o sufrágio secreto, contra a habitual votação de mão no ar. É que a habitual escolha esmagadora de dos Santos encontrava explicação também na conjuntura de receios suscitada por uma liderança, diga-se, totalitária. A votação de mãos no ar foi sempre um expediente inibidor de qualquer veleidade para um exercício mais democrático, permitindo que o líder e seus mais fiéis adeptos soubessem quem eram os seus adversários.

As circunstâncias entretanto mudaram e agora nem tudo corre a favor de João Lourenço, a começar mesmo pelo sufrágio secreto. Ao contrário de José Eduardo dos Santos, que em 1979 assumiu a liderança do partido por morte de Agostinho Neto – que aliás o escolhera –, João Lourenço terá de permeio a sombra do seu antecessor a estorvá-lo. José Eduardo dos Santos está vivo e, embora não concorra ao cargo, ainda pode influenciar o escrutínio por via não só do seu poder imanente, como também dos jogos de bastidores que ele e os seus indefectíveis estão em condições de realizar.

Numa palavra, pela primeira vez, o líder do MPLA poderá ser realmente escrutinado pelos seus pares. Não estando em causa a sua eleição como novo presidente do MPLA, João Lourenço, ao contrário de José Eduardo dos Santos nos seus tempos de poder, poderá não concitar uma votação esmagadora. A incógnita reside apenas no percentual que vai obter. E já há quem prognostique que dificilmente o sucessor de Eduardo dos Santos passará dos 80 por cento e caso passe dos 70 já seria muito bom.

Há razões bastante para JES manobrar no sentido de que a votação no seu sucessor não seja avassaladora.

João Lourenço tem contra si o sufrágio secreto que, como já o dissemos, estimula um voto mais consciente, no pressuposto de que o líder não está lá a observar, contrariamente à visão orwelliana do Big Brother. Mas o factor mais importante ainda é a mudança de mentalidade, que induz o voto inteligente. É que ao contrário da líder da OMA, Luzia Inglês “Inga”,  que ao anunciar o voto em João Lourenço está com certeza a raciocinar com os critérios revolucionários dos tempos do “CIR Certeza” e outros, desta vez a direcção do MPLA, e os congressistas em geral, têm a oportunidade de votar com os pés bem firmes no solo e sem paixonites.

Os congressistas têm diante de si uma oportunidade soberana de votar com utilidade e inteligência. Isso não se pode determinar com clareza, pois os congressistas não estarão munidos de uma bola de cristal, mas há um limiar de votação em João Lourenço que certamente terá o condão de o comprometer cada vez mais com as tarefas de modernidade do partido e, na Estado, induzi-lo a fazer integralmente as mudanças de que a sociedade e o país em geral necessitam para alcançar maiores patamares de desenvolvimento e progresso.

Mas há uma inversa perigosa que os congressistas não deveriam perder de vista. Votar em João Lourenço num score estratosférico do tipo 99,99%, tal como acontecia no tempo de José Eduardo dos Santos, pode significar um cheque em branco para que o novo líder se sinta embalado a experimentar, ele também, as “delícias” do totalitarismo. Essa deriva pode ser evitada pelos congressistas com um voto consciente e livre, mas acima de tudo ponderado.

E, por estranho que pareça, quem está realmente interessa que essa deriva não ocorra seria exactamente José Eduardo dos Santos. Já de si preocupado com o primeiro ano de mandato de João Lourenço, que está a terminar com indícios não muito tranquilizadores para o futuro do seu clã, José Eduardo dos Santos tem todo o interesse em manobrar no sentido de que a votação no seu sucessor não seja avassaladora. Setenta por cento ou pouco mais do que isso, é visto como um percentual que, simbolicamente, teria o efeito de lograr algum comedimento da parte de João Lourenço e também induzir uma barganha tácita entre os vários poderes no  interior do partido. Enfim, uma espécie de “check and balance” que colocaria o poder da ala “lourencista” um pouco mais sob o escrutínio e controlo dos “eduardistas”.

O antigo presidente ainda possui um conjunto de “satélites” seus no interior da direcção do MPLA – como de de resto se está a ver, em níveis abundantes, com as derradeiras manifestações de culto dedicadas a José Eduardo dos Santos. Estes “escudeiros”, por certo, também não estarão interessados em dar rédea solta a João Lourenço. Ao contrário da acima referida Luzia Inglês “Inga”, eles têm múltiplos interesses materiais (e não apenas) a preservar. Entre eles estão nomeadamente aqueles que acumularam fortunas ilícitas que podem cair na alçada da cruzada decretada pela governação do actual líder contra os fenómenos de corrupção e improbidade pública. Muitos deles continuam a ter em José Eduardo dos Santos um líder emérito e é debaixo dessa capa que uns e outros procurarão lograr mútua protecção.

Higino Carneiro na barganha para o “vice”? Impolutos, impolutos mesmo, na actual direcção do MPLA, não há muitos…

A escolha do vice-presidente do MPLA é o único aspecto sobre o qual João Lourenço pode ter total controlo, mas ainda assim não deixa de ser um grande “pepino” que ele terá de descascar. O lugar-tenente teria de ser alguém de fidelidade à prova de bala, mas que em simultâneo tivesse atributos agregados que lhe permitissem ser realmente o seu ‘back-up’ relativamente à condução das tarefas intrínsecas ao partido, já que o líder teria de estar mais liberto para as funções de chefia do Estado. José Eduardo dos Santos teve sempre quem lhe cobrisse o flanco nas funções partidárias. Não foi tanto assim com Roberto de Almeida, mas foi-o com a passagem de Pitra Neto na vice-presidência do MPLA, que foi quem coordenou quase que por inteiro as tarefas de reorganização do partido para adequá-lo aos desafios das eleições realizadas em Angola em 2008.

Sabendo-se entretanto que a figura do vice-presidente tem de sair do Bureau Político, bem se vê que João Lourenço não tem a tarefa muito facilitada nessa matéria, já que o leque de escolhas nem por isso é muito grande – além de que nesse órgão ainda há alguns “submarinos” do antigo líder, José Eduardo dos Santos. Este aspecto da questão é importante, já que o lugar-tenente de João Lourenço no partido não poderia ser alguém que, por exemplo, ganhando protagonismo com as funções operacionais que lhe caberiam no interior do aparelho partidário, se sentisse depois respaldado para tentar correr pelas próprias pernas, disputando-lhe a chefia do Estado nas eleições que se seguissem ao final de mandato.

Por exemplo, um dos nomes alvitrados por entre os bastidores como uma possível escolha de João Lourenço para seu vice-presidente no partido, é o de Higino Carneiro. Higino tem potencial, mas também não tem poucos anticorpos. Escolhendo-o seria apostar numa carta viciada à partida, já que lhe criaria enormes embaraços em relação à credibilidade da cruzada contra a corrupção. É evidente que estar no cargo de “vice” do MPLA não tem a mesma exposição pública que dá o cargo de Vice-Presidente da República. E, por isso, é uma cartada que João Lourenço sempre poderia tentar. Até porque impolutos, impolutos mesmo, na actual direcção do MPLA, não há muitos por onde se possa  escolher.

Bem se vê, por conseguinte, que o caminho para João Lourenço não está totalmente desminado.

 

 

 

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